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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Já Desabrochou


Imagine uma rosa, agora tente imaginá-la com um caule lindo, comprido, grosso e sem espinhos. A felicidade da Rosa estava em ser admirada, tocada, e às vezes colhida para servir de uma espécie de presente comparativo, ou seja, presenteava-se alguém com rosas, especialmente mulheres, comparando a beleza e a perfeição da Rosa com a pessoa amada.
Havia uma regra no Jardim onde essa Rosa estava plantada. A norma era simples, mas com conseqüências trágicas se houvesse o descumprimento dela. Era dito que se o representante de toda a criação, de todo o Jardim, chamado Homem, comesse certo fruto proibido todo o Jardim sofreria uma transformação, uma maldição. Nessa maldição o Homem não seria mais Homem, seria apenas homem; a Rosa não seria bem uma Rosa e o Jardim não seria mais aquele Jardim!
O pior aconteceu! O Homem comeu do fruto proibido, a maldição caiu sobre todo o Jardim e a Rosa sentiu dores piores que as de parto, pois começavam a crescer em seu caule, que agora era mais fino e frágil, espinhos duros e pontiagudos. Agora a Rosa machucava, agora a Rosa causava uma nova sensação chamada Dor por causa dos espinhos. Olhando para os espinhos, a Rosa não se reconhecia mais. Tudo havia mudado!
As rosas não mais se abraçavam ou dançavam juntas, não mais se encostavam, doía demais estar junto. Os espinhos não deixavam que ninguém se aproximasse demais delas. A Rosa percebeu que a mesma coisa estava acontecendo com todo o Jardim. Ao invés de estarem juntos, todos estavam se afastando. A aproximação causava Dor e ninguém queria sentir dor, mas também ninguém queria estar sozinho. Os habitantes do Jardim agora estavam criando formas de estarem juntos sem se machucarem, mas nada resolvia porque cada um tinha um jeito de machucar e um jeito de ser machucado!
Só havia um jeito! O Criador e Rei do Jardim Encantado conversou com Seu Filho único e disse que somente a morte Deles resolveria o problema da maldição. Todas as dores e machucados que deveriam ferir ainda mais o Jardim, cairia sobre Eles. Para concluir o plano, o Criador e o Filho se uniram à forma humana e justos formaram o que se chamou de Homem Deus. Homem Deus realizou feitos incríveis chamados de Milagres, que são pequenas amostras de como o Jardim seria sem a maldição. Mas a Serpente, que havia se conformado à maldição, planejou a morte de Homem Deus, mas o que ela não sabia era que a própria morte Dele era parte do plano.
A Serpente consegue convencer o Jardim a matar Homem Deus. Pregado na árvore do fruto proibido, Homem Deus grita com suas últimas forças que tudo estava resolvido. O grito foi ouvido em todas as partes e todo o Jardim foi liberto da maldição. O que a Rosa não entendia era que ela ainda tinha espinhos, mas ela também não entendia matando um inocente a própria Morte é vencida. Homem Deus volta à vida, mas sem espinhos. Estava sem dores e sem machucados, apenas a marca que lembrava todo o Jardim que não havia mais maldição. Isso fez a Rosa imaginar que no verdadeiro Reino de Homem Deus é possível viver sem espinhos e sem dor.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Primeiro Olhar


José não pediu para ser cego, aliás, muita coisa passou pela sua cabeça a respeito das possíveis causas de sua cegueira. A mãe, uma adolescente, ter fumado durante a gestação, a rejeição por parte do pai, um problema no parto, uma série de coisas inundava a mente de José. Desde criança ele ouvia muito a respeito das cores, das formas das coisas, dos rostos das pessoas, mas como explicar “loiro” para alguém que nem sabe o que é amarelo? Ele apenas imaginava, porque a única cor que ele conhecia era preta, e de vez em quando, um vermelho crepúsculo. Até isso ele não sabia!

O seu tato e olfato melhores do que qualquer amigo ou familiar. Sabia qual era a pessoa à sua frente tocando-lhe o rosto e, às vezes, pelo cheiro do perfume. Sua audição também muito apurada sabia reconhecer quando era o avô que falava ou quando era a mãe que chegava do trabalho. A avó cantando na cozinha fazendo nhoque e o molho de tomate era de aumentar a fome e o sossego no coração. Digamos que foi uma infância um tanto difícil, principalmente quando seus primos iam para a praia e não o chamavam, diziam que ele “dava muito trabalho”, mas José teve seus bons momentos quando no primeiro Natal em que ele passou com toda a família reunida e ele teve que adivinhar seus presentes tocando nos embrulhos. Foi inesquecível!

Na adolescência, a descoberta de um sentimento um tanto estranho. Ele estava se apaixonando por uma menina, ele se encantara com sua voz e pela sua delicadeza. Quando ela o ajudava com os afazeres da escola, ele sentia o perfume e conseguia sentir a pele daquela que tinha roubado seu coração. Mas como amar alguém que nunca viu? Os meninos do bairro o apelidaram de Zé Ceguinho, que ficou com ele até o último dia de sua vida e que ele nunca gostou de verdade. Como ela amaria ou se casaria com o “Zé Ceguinho”? A grande maioria das pessoas se achava superiores ao Zé, se não superiores tinham pena do pobre rapaz que não podia ver. Ele acaba desistindo de amar, de se abrir, mesmo que um ou dois amigos o tivessem incentivado.

Um convite inesperado aparece. Um acampamento de jovens cristãos num lugar super bacana não parece uma má idéia. Ele vai e numa noite as estrelas brilharam mais fortes e, mesmo que seus olhos de carne estivessem escurecidos, os olhos da alma se abrem e ele consegue ver o que muita gente boa de vista não vê; a face de Deus revelada em Jesus. Lágrimas caem de seus olhos e seu amor é correspondido não pelo fato de ele ser cego, mas justamente porque José conseguiu ver Deus em sua cegueira. Entendeu que o fato de ser cego não era um limite, mas uma maneira livre de pensar e criar as coisas da forma como quisesse, como Beethoven sendo surdo criava as melodias que queria.

Os anos passam e o Zé Ceguinho morre. A escuridão agora se transforma em uma forte luz. É a primeira vez que ele abre os olhos e a primeira coisa que o Zé vê é a face de um homem sorrindo, mas ele sabia que não era um homem qualquer, era o rosto Daquele que devolve a vista ao cego, era Aquele que tinha cumprido com tudo que havia prometido. Como de costume, Zé toca a face de Jesus e diz: “É verdade mesmo que nem olhos viram e nem ouvidos ouviram e nem jamais entrou em coração humano o que o Senhor tem preparado”.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Árvore, O Velho e A Criança!


Numa tarde ensolarada não havia uma folha sequer no chão da varanda da velha casa, havia apenas o barulho de galhos secos balançando com o vento. Sentado na varanda estava o morador dessa pequena casa vendo o movimento de sua rua e pensando no que ia fazer para que sua árvore voltasse a sorrir, a florescer!

Já havia tentado tantas coisas, tantos planos e tanta expectativa e nada. Esperança, moradora da casa, estava ausente por conta de compromissos com outras casas e outras árvores. Havia resolvido tantos problemas e não estava lá para resolver o problema de sua própria casa. Onde estaria Esperança?

O velho morador resolve cortar a árvore. “É mais fácil, mais rápido e assim não preciso olhar para as árvores dos outros e ficar aqui sofrendo”, resmungava o velho morador! Ao pegar o machado começou andar em direção da árvore. Nesse momento algo segura seu pé, ele não consegue andar, não consegue dar mais nenhum passo. Uma raiz prende seu pé, é uma raiz da árvore. O pé torce e ele cai. Com raiva começa a chorar. O machado em suas mãos começa a ficar mais pesado e ele solta. Fica ali sentado com a mão em seu tornozelo e olhando para árvore que continuava em pé, mesmo aparentando estar seca.

Havia uma lenda que dizia que se uma árvore estivesse seca, significava que o coração de seu dono também estava. O velho morador não acreditava em lendas, muito menos ditas por aquelas crianças do parque ao lado. Aliás, uma delas vendo o que estava acontecendo chegou perto do velho e perguntou por que ele estava ali sentado no chão. Muito bravo, o velho respondeu que não era nada e que ela voltasse a brincar. O menino disse que não tinha graça brincar sabendo que a árvore estava seca. O bairro estava bonito, mas faltavam as flores daquela árvore. Era como se algo faltasse.

O menino teve uma idéia. Abriu o portão, entrou no quintal e abraçou o velho morador daquela casa. Quanta saudade! Fazia tempo que não recebia um abraço daqueles! O velho retribuiu o abraço com um beijo na testa daquela criança. Agora se via um sorriso na face daquele velho. A criança estranhou, o velho sorriu! Há tempos que ele não via um sorriso naquela cara emburrada!

Ao ajudar o velho a se levantar algo mágico começou a acontecer. Pequenas flores começaram a brotar nos galhos daquela árvore. Como uma chuva de estrelas, as folhas começaram a nascer e a cada risada do velho, uma flor brotava no jardim. Não demorou muito para que toda a árvore estivesse coberta de flores, folhas e frutos. O velho não acreditava no que estava vendo, mas era bem real. Um espanto de beleza; parecia um sonho! A cada nova gargalhada o velho se transformava em criança. Suas mãos, seus pés, seu rosto foram tomando novas formas. Um novo cheiro estava no ar, um perfume diferente.

Ao olhar ao redor “Aquele que era Velho” percebeu que todo bairro era só de crianças. Só faltava ele! Como foi bom ao olhar para trás ver que Esperança não estava tão longe quanto ele achava; ela estava dentro da árvore, pronta pra nascer de novo!